Considerações sobre a crise
Publicado por EPTV 07 em 11 de Agosto de 2009, Terça-feira
A crise que vem se arrastando há algumas semanas é complexa. Muito mais do que a grande mídia tenta passar.
O grande motivo por trás de todo esse toma lá, dá cá é as eleições de 2010. Maior que o PT, Lula mexe os pauzinhos para a candidatura de seu sucessor: Dilma. Dilma sozinha é fraca, mas associada aos 70% de aprovação de Lula, é muito forte e o PSDB sabe disso. É aí que entra o primeiro interesse.
O foco
Com a crise ocupando cada vez mais espaço nos noticiários, sobra menos espaço para Lula associar sua imagem à Dilma e a torná-la conhecida do público. Com isso, evita-se que Serra tenha de mostrar serviço agora, com o presidente tão prestigiado, o que geraria um desgaste à imagem do governador nas classes mais baixas.
O jogo de apoios
O PMDB sempre foi um partido em cima do muro mas tendido à situação. Não tem a força de partidos como o PT ou o PSDB, polarizadores, mas concentra grande poder. Tanto para o PT quando para o PSDB, ter o apoio dele é uma senhora ajuda. Com isso, gera-se uma picuinha do tipo se não tenho seu apoio, o outro também não terá.
Lula, e conseqüentemente o PT, precisa mais do PMDB. Sem o apoio do partido a porta da CPI da Petrobrás está aberta para a oposição fazer gato e sapato; o sucessor da presidência do Senado é do PSDB, se Sarney sai denúncias contra o governo fatalmente surgirão (material ótimo para campanhas); sem o apoio do PMDB o governo não tem mais maioria; uma futura coligação fica mais difícil; etc.
Por outro lado, manter esse apoio pode custar caro. Com a crise centralizada em uma pessoa, o desgaste político é maior. Resultado: quanto mais manchetes surgem contra Sarney, mais procura-se não se associar a ele. Dilma, Serra e a maior parte dos opositores a ele perceberam isso. Os primeiros não querem associar sua imagem, ficando isentos e não dando declarações. Os últimos, todos pré-candidatos a cargos em 2010, tentam ganhar futuros votos fazendo oposição a Sarney.
O lado de Sarney
Para Sarney, permanecer na presidência é questão de garantir seu poder. A maioria das denúncias que caem sobre ele são políticas e, portanto, passíveis de negociações (que ele sabe fazer muito bem). Ele só se afasta ou renuncia caso surjam investigações policiais (assim que começaram as investigações contra Fernando Sarney, ele tratou alternar o foco para sua tropa de choque).
A tropa de choque serve, também (e aí já é mais óbvio) para amortecer o desgaste de Sarney. Além disso, há nele um prazer vingativo em ter Collor e Renan, que antes eram inimigos ferrenhos, o defendendo com unhas e dentes. De mesmo modo também o há com o presidente, com o bônus, ainda, de poder se aproveitar de seu índice de popularidade. No entanto, a diferença para com os primeiros é que Sarney precisa do apoio do PT para se manter no cargo.
A personalização do corrupto
Como bem diria José Simão: “não tem virgem na zona”. Sarney não é o único corrupto mas a centralização das denúncias: 1) tira o foco de outros corruptos, que vestem pele de cordeiro; 2) polariza o discurso, levando a opinião popular a pensar que toda essa lama se acabará com sua saída e 3) tira de pauta a Reforma Política.
A imprensa
Além disso, não há interesse por parte da Imprensa para que se investigue tudo. Caso fosse decidido assim, além dos políticos, muitos jornalistas corruptos teriam sérios problemas com a Justiça. Com a lama atingindo a todos, os jornalões e revistas – que hoje se acham os todos poderosos, capazes de derrubar quem quer que seja – perdem patrocinadores.
Os veículos sabiam das últimas denúncias há tempos e sabem muito mais. Divulgam de acordo com o sabor dos ventos.
Obs. 1: A lei que proíbe o fumo em lugares públicos existe há muito tempo e é federal. Em cidades como o Rio de Janeiro e Recife ela já vigora, sem estardalhaço.
São Paulo, no entanto, criou legislação específica e moveu mundos e fundos para que fosse nacionalmente divulgada. O objetivo: fortalecer a imagem do governador José Serra. Porque? A lei é de forte apelo popular e fatalmente será respeitada, o que dá a impressão de que as leis criadas pelo governador são cumpridas, dão certo.
Obs. 2: Cerca de dois terços do Conselho de Ética tem algum processo tramitando na Justiça. Além disso, o Conselho foi formado em fevereiro desse ano, quando a crise estava em formação, o que é anti-ético.
Obs. 3: A 1ª Secretaria do Senado quase sempre foi do DEM. Investigar eles que é bom…








